A banda do professor Rogério não tinha nada de Chico Buarque. Não tocava coisas de amor, tampouco evocava a transcendentalidade. Mesmo assim, o bairro todo parava para vê-la passar, porque o charme do desfile marcial e cadenciado do JEC era simplesmente existir.
Sete de setembro. Um grupo de não mais de 50 crianças de 7 a 11 anos alinha-se num sol escaldante para romper 500 metros da mais larga avenida de Niterói, convocados a vestir o pesado fardo branco e amarelo.
Pequenos ombros agora carregam toneladas de ferros dos bumbos, surdos, taróis, ou, como fazia Alexandre, de uma lira com quase metade de seu tamanho - levando a plateia a crer que uma simples batida naquele metal ressonante já passaria incontestável atestado de bravura.
A linha de frente tem baquetas grossas que rodopiam da direita para a esquerda e vice-versa atingindo os grandes alvos brancos. Os bumbos de Zé Carlos e de seu companheiro que a memória teima em não resgatar têm a escolta minha e de Daniela, em surdos igualmente ritmados.
Pá-pá-páparará. O som dos taróis não é exatamente criativo, mas considere a façanha de manter a mesma cadência por horas com roupas apertadas, chapéus, luvas e sob o impiedoso sol da quase primavera fluminense. São acompanhados por pratos um tanto quanto insensíveis, geralmente alunos mais relutantes em entrar para o time do professor Rogério convencidos pelo argumento de que são leves e só precisam se chocar um contra o outro...
De mais a mais, têm a beleza de sua evolução garantida por uma mistura exótica de elementos como as pesadas liras, as leves balizas e as nem leves nem pesadas carregadoras de pombas que teimam em não voar. Aí entra Gabriela com seu incorrigível mal-humor. Completam o time os alunos sem função na banda que ora carregam balões com a logo da escola, ora se vestem com o uniforme das Forças Armadas, como Isabella.
Natália e Carolina evoluem à minha frente, abrindo a apresentação da escola. Hoje, veria toda aquela leveza e amplitude de movimentos em trajes mínimos como uma afronta à marcialidade das minhas batidas na pele seca do surdo. Mas no alto dos meus 9 anos tudo parece se encaixar. Pensando bem, não parece nada. A única coisa em que consigo pensar naquela manhã são os gestos amplos de Rogério.
O regente e professor de educação física tem quase 2 metros, o que, pra uma criança, já se torna um elemento intimidador. Somam-se aí a voz grave e as ordens incisivas, e minha existência por 1 hora se justifica pelo árduo desafio de não deixar a baqueta cair.
Quando o microfone falho reverbera pela avenida apresentando o Jardim Escola Colméia (assim mesmo, com acento, porque reforma ortográfica passa bem longe daquele setembro de 91), nossas preocupações se resumem a parar de tocar em sincronia e encher nossos pulmões de ar para expelir o coro exaustivamente ensaiado: "hip-hip, urra! Colméia saúda Niterói".
Olhamos novamente para Rogério. Se tudo estiver bem, mais um sinal e trocamos a óbvia cadência 1 pela inventiva cadência 2. Não há nada além disso para os ritmistas, como pouco existe além de estrelas, pontes e espacates para as balizas - talvez aí se justifique o certo glamour dos tocadores de lira, que pelo menos se gabam de ter 7 ou 8 músicas diferentes em seu set list.
Tudo passa muito rápido. No fim do percurso, outra banda é apresentada, indicando que nosso show terminou. Mais um cumprimento protocolar e tudo volta a ser como antes. Crianças são donas de pipas, bicicletas, bolas de borracha e casinhas de boneca. Avenidas, porções de carros cercadas de prédios por todos os lados.



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