Julgar pra quê? Quando a chuva cai, não julga se vai dar vida a novas plantas ou destruir cidades inteiras. Assim que o sol nasce, não questiona se será o vilão dos que não suportam o calor ou a beleza da paisagem enamorada.
Se Deus que é onisciente me concebeu, mesmo sabendo de cada falha que eu poderia cometer, mesmo conhecendo a fundo a alma do seu filho, sequer julgou se eu merecia ou não estar aqui, porque serei eu a julgar a falha alheia? Ainda julgo porque erro. E erro porque julgo. É recíproco enquanto eu for aprendiz. E nessa escola onde somos todos alunos e professores, a falha de uns é acerto de outros.
Por que seria você a atirar-me a pedra? Se julgares que mereço, faça-o. Mas tenhas certeza de que um dia terás a oportunidade de refletir por isso. Refletir como faz um espelho ou um riacho aos seus pés. Projeta tua imagem e te fazes crer que és único, sem perceber que não passas de uma projeção distorcida de ti mesmo.
E que curioso! Vivemos por essas projeções. Através de imagens falsas ou incompletas de nós mesmos ou daquilo que nos dizem para ser ou fazer. Quantas vezes nos perguntamos o que fazemos aqui?
A resposta a essa pergunta se chama busca. Por isso é uma estrada sem fim. Sem fim mas jamais sem rumo. Cada passo fica registrado. Se te ofendo, o perdão começa em mim. Se me maltrato, quem sabe a cura esteja em você?
Por que somos irmãos? Talvez porque o outro seja nada menos do que a extensão de cada um. Minha alegria só se completa quando te faço sabê-la. E meu luto só diminui quando olho para sua dor.
Se meu coração anda doente, não se conforma com a tua realização e trabalha em silêncio para que ela se desmanche. É nossa infância de espírito sem saber lidar com o brinquedo que não temos. Não seria tão melhor reconhecer e aprender em vez de julgar?
Por que o do outro é sempre mais gostoso? Porque sem o outro nada faria sentido. Por isso adoramos as fotos, os blogs, orkuts, facebooks, mp3, o bate-papo com os amigos e o almoço da família. Por isso choramos a partida de um ente querido. É um pedaço nosso que se vai, mesmo se um dia outro quiser essa vaga.
Nosso dia é curto. São 86 mil segundos que passam num piscar de olhos. Os anos se vão em bem menos tempo. Quando nos damos conta, lá estão os fogos a espocar nos céus e a esperança em nossa alma.
Então, por que julgar, criticar, ofender, magoar? Não podemos simplesmente sorrir ou chorar? Deixar fluir nosso sentimento como ele vem ao mundo. E nos abracemos diariamente, ainda que em pensamento, numa corrente de amor sem fronteiras.
Faz bem para os espíritos, faz bem para as cidades, famílias, para o meu vizinho, o seu, para o nosso país e para o planeta em que vivemos. Ele anda doente e só pede um pouco mais de amor. E isso nasce com cada um de nós. Pode acreditar.
Uma das artes mais difíceis para o ser humano é perdoar. Não apenas o erro alheio, mas o sentimento de culpa que vez por outra atormenta nossa consciência por aquilo que poderíamos ter feito melhor ou simplesmente pelo que deixamos de ser.
O auto-perdão é tão ou mais importante do que o perdão às falhas dos outros, porque nos livra das amarras da culpa. É, antes, um ato de desprendimento do ego, sempre a nos cobrar perfeição no agir, sucesso nos afazeres, defesa do espaço - tangível ou não -, preservação da autenticidade e manutenção do status.
A auto-punição corrói reações psíquicas e as relações pessoais. Põe fim a amizades, desata casamentos e limita o agir. Apenas por querer preservar nossas máscaras sociais ou prestar contas de nossa pseudo-integridade, punimos inconscientemente nosso campo mental e flagelamos sutilmente nosso corpo perante o ambiente que deveria nos acolher.
Diante da impotência do não-perdoar, ora tendemos à depressão, ora atiramos contra o mundo, espelhando nos que nos cercam nossas próprias carências, construindo assim falsos pontos de apoio para levarmos nosso dia-a-dia com cacos mal-juntados de personalidade.
Não devemos ser tão rígidos com nossa integridade. A fragmentação do eu em diversas personas - o eu-pai, o eu-filho, o eu-amigo, o eu-empregado - é necessária à nossa sobrevivência em um mundo que nos cobra rapidez, desempenho e resultados.
Mas a desculpabilização como exercício diário nos faz reler nossos atos sob uma perspectiva menos dolorosa. Aos poucos, nos damos conta de nossas máscaras punitivas ou evasivas e preparamos nossas almas para uma integridade fluente que vai além das imposições e restrições auto-sugeridas.
A partir daí, a consciência tende a rumar à generosidade e, quando menos nos damos conta, já sabemos sorrir para nossos acertos e jurar amor eterno aos erros que nos fazem crescer.

Muitas vezes me pego de volta ao campinho de terra em Maria Paula. Lá, até hoje faço minhas defesas arrojadas, dribles improváveis, gols e, principalmente, revejo meus amigos. Se, de fato, rumasse para aquelas bandas, encontraria meu sonho consumido por casas que justificam a expansão imobiliária na região e, provavelmente, não encontraria um terço de quem imagino lá estivessem.
Não importa. Uma das frases que aprendi com meu pai é: onde está o seu coração, ali está o seu tesouro. Pois de tempos em tempos vou reivindicar meu quinhão. E descubro que ele se mistura com lembranças de um menino que andava descalço por ruas de terra e fazia da pequena vila um grande autódromo com corridas disputadas de bicicleta num espaço onde mal cabiam carros.
No quarto, o grande estádio da cama, com gol de caixa de sapato, jogadores-pregadores coloridos e um narrador empolgado por brincar de ser Deus e criança em plena adolescência. No campeonato do quarto, manipular resultados não era antiético e o vencedor poderia mudar ao sabor dos gritos de gol fabricados numa fração de segundo.
Marcelo, pai de arquibancada, ensinou-me a torcer pelo Botafogo como um autêntico botafoguense. Nas curvas dos assentos acimentados do Maracanã ou sob o sol niterioense de um Caio Martins, me apaixonei pelo futebol com a mesma intensidade que ele torcia pelo Bota. Ele era daqueles capazes de dizer: não gosto de futebol, gosto é de Botafogo.
Fosse por Marcelo, talvez hoje não seria um jornalista esportivo. No máximo, um dos muitos corneteiros de plantão das arquibancadas. E como seria divertido isso! Gritaria contra o técnico, xingaria o lateral que não cobre, o meia que não sabe passar e o atacante que se cansa de perder gols e provocaria de vez em sempre quem não vestisse o preto e o branco.
Mas havia Francisco, de quem herdei meu segundo nome e meu sobrenome. Austero, comedido, perspicaz, um mineiro cruzeirense que freqüentava a sede do Flu e dizia torcer pelo Botafogo. E torcia, de fato. Não como Marcelo. Meu pai era cerebral, racional, lógico. Perdeu por isso, venceu por aquilo, não merecia vencer, tinha de ganhar...
Tudo levava a crer que meu pai não era um autêntico botafoguense, mas ele revelava sangue alvinegro no pessimismo crônico. Por outro lado, quantas não foram as vezes em que o vi abrir mão de torcer pelo seu time de infância para compartilhar da felicidade dos filhos? Não me lembro de um Cruzeiro x Botafogo sequer que tenha feito seu coração pender para o lado celeste.
Com ele, aprendi a ver rivais mortais apenas como adversários esportivos. E entender que futebol era apenas um jogo. Um balé lindo, eterno, de vencedores e vencidos que se alternam em intensidade e freqüência como num perfeito concerto musical. Perder ou vencer depende do ponto de vista, quem sabe do humor de quem torce... E vi que tinha escolhido o lado dos perdedores só para encher meu coração de alegria nas poucas vezes em que saísse vencedor, a curtir uma alegria permitida a poucos.
Perder deixou de ser doloroso com o passar do tempo, justo por conta do aprendizado que meu pai me deu. Já Marcelo virou uma espécie de termômetro das arquibancadas. Sempre que quero saber como está o alvinegro, recorro a ele,afinal, ninguém vive Botafogo mais intensamente do que meu segundo pai. E quando quero deixar de lado o traje de jornalista para viver o torcedor apaixonado, é ao lado dele que acompanho a missa campal dos domingos.
Se alguém algum dia procurar essa alma alvinegra e não encontrar, tente um dos inúmeros estádios espalhados pelos sonhos de cada torcedor deste planeta. Estarei numa daquelas curvas, a inspirar sempre as letras de quem escolheu o caminho da paixão por contar um esporte que escreve torto por linhas mais tortas ainda.