sábado, 7 de novembro de 2009

Reflexos


Será que estamos preparados para sermos nós mesmos, com a alma despida dos preconceitos, medos e julgamentos? Conseguiremos caminhar pelas palavras sinceras sem nos ferirmos com espinhos ou escorregarmos na espuma da falsa brandura?

Um dia, um bom dia será simplesmente o desejo de um dia bom e não a expressão protocolar. A felicidade estará não em minha promoção, meu status ou nos elogios recebidos. Sonho com aquela manhã em que bastará olhar o sol pela janela e agradecer por cada amigo existir.

Aliás, ainda sonho fazer amigos com a pura intenção de sorrir na sua presença. De deixar o tempo passar suave como uma brisa de fim de tarde e compartilhar dos bons sentimentos sem, no entanto, esperar uma gota que não seja por pura sinceridade. Poderei dizer 'eu te amo' e ser verdadeiramente compreendido? Ou amar ainda será verbo intransitivo, exclusivo e excludente?

Se for, não verei o mesmo amor que criou os sorrisos, os olhares, o cantar de um pássaro ou a beleza da singularidade. Todo o mundo não passará de reflexos num espelho distorcido a nos aumentar o ego ou diminuir o moral.

Ainda assim, valerá a pena viver pelo simples prazer de aprender com cada pegada. Ora em desertos de solidão, ora em nuvens de esperança. De qualquer modo, sempre em passos de gratidão.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A banda

A banda do professor Rogério não tinha nada de Chico Buarque. Não tocava coisas de amor, tampouco evocava a transcendentalidade. Mesmo assim, o bairro todo parava para vê-la passar, porque o charme do desfile marcial e cadenciado do JEC era simplesmente existir.

Sete de setembro. Um grupo de não mais de 50 crianças de 7 a 11 anos alinha-se num sol escaldante para romper 500 metros da mais larga avenida de Niterói, convocados a vestir o pesado fardo branco e amarelo.

Pequenos ombros agora carregam toneladas de ferros dos bumbos, surdos, taróis, ou, como fazia Alexandre, de uma lira com quase metade de seu tamanho - levando a plateia a crer que uma simples batida naquele metal ressonante já passaria incontestável atestado de bravura.

A linha de frente tem baquetas grossas que rodopiam da direita para a esquerda e vice-versa atingindo os grandes alvos brancos. Os bumbos de Zé Carlos e de seu companheiro que a memória teima em não resgatar têm a escolta minha e de Daniela, em surdos igualmente ritmados.

Pá-pá-páparará. O som dos taróis não é exatamente criativo, mas considere a façanha de manter a mesma cadência por horas com roupas apertadas, chapéus, luvas e sob o impiedoso sol da quase primavera fluminense. São acompanhados por pratos um tanto quanto insensíveis, geralmente  alunos mais relutantes em entrar para o time do professor Rogério convencidos pelo argumento de que são leves e só precisam se chocar um contra o outro...

De mais a mais, têm a beleza de sua evolução garantida por uma mistura exótica de elementos como as pesadas liras, as leves balizas e as nem leves nem pesadas carregadoras de pombas que teimam em não voar. Aí entra Gabriela com seu incorrigível mal-humor. Completam o time os alunos sem função na banda que ora carregam balões com a logo da escola, ora se vestem com o uniforme das Forças Armadas, como Isabella.

Natália e Carolina evoluem à minha frente, abrindo a apresentação da escola. Hoje, veria toda aquela leveza e amplitude de movimentos em trajes mínimos como uma afronta à marcialidade das minhas batidas na pele seca do surdo. Mas no alto dos meus 9 anos tudo parece se encaixar. Pensando bem, não parece nada. A única coisa em que consigo pensar naquela manhã são os gestos amplos de Rogério.

O regente e professor de educação física tem quase 2 metros, o que, pra uma criança, já se torna um elemento intimidador. Somam-se aí a voz grave e as ordens incisivas, e minha existência por 1 hora se justifica pelo árduo desafio de não deixar a baqueta cair.

Quando o microfone falho reverbera pela avenida apresentando o Jardim Escola Colméia (assim mesmo, com acento, porque reforma ortográfica passa bem longe daquele setembro de 91), nossas preocupações se resumem a parar de tocar em sincronia e encher nossos pulmões de ar para expelir o coro exaustivamente ensaiado: "hip-hip, urra! Colméia saúda Niterói".

Olhamos novamente para Rogério. Se tudo estiver bem, mais um sinal e trocamos a óbvia cadência 1 pela inventiva cadência 2. Não há nada além disso para os ritmistas, como pouco existe além de estrelas, pontes e espacates para as balizas - talvez aí se justifique o certo glamour dos tocadores de lira, que pelo menos se gabam de ter 7 ou 8 músicas diferentes em seu set list.

Tudo passa muito rápido. No fim do percurso, outra banda é apresentada, indicando que nosso show terminou. Mais um cumprimento protocolar e tudo volta a ser como antes. Crianças são donas de pipas, bicicletas, bolas de borracha e casinhas de boneca. Avenidas, porções de carros cercadas de prédios por todos os lados.

domingo, 27 de setembro de 2009

Queijos e vinhos


Bendito o tempo que transforma leite em queijo e suco de uva em vinho.

A receita é tão simples quanto artesanal. Tão sofisticada quanto intuitiva. E dá certo.

Não é a força do meu braço que vai talhar o leite ou fermentar a uva prensada.

Quando vou colher as sementes em belas flores no meu jardim? Não sei. Só posso cuidar de não destruí-lo com as tempestades da ansiedade.

Joanna apareceu na minha vida como uma brisa de fim de tarde. Leve, serena, mas constante. Fez minhas flores quase-murchas parecerem lindos girassóis.

Todas apontaram para esse facho de esperança. Brilho intenso que brota da simplicidade em um sorriso transbordando verdade.

Queijos e vinhos derretem na boca sabedoria e maturidade. Atalhos de vida que levam à alma de uma química única.

Feliz quem tem uma farmacêutica a lhe fabricar pílulas de carinho, gotas de cumplicidade e doses homeopáticas de felicidade.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Hora de agradecer


Definitivamente, não posso reclamar do que recebi de Deus nessa vida. Saúde, paz, uma família maravilhosa, amigos e 27 anos bem vividos.

Minha infância me traz recordações maravilhosas. Caminhar pelas ruas de terra descalço, jogar futebol no campinho careca de Maria Paula, em Niterói, foram alguns dos presentes que Papai do Céu me deu através de minha mãe. Uma pessoa de amor incondicional, carinho ímpar e cuidados constantes com o bem-estar dos filhos. Aliás, com o bem-estar de todos os que sempre estiveram a sua volta.

Ali, na simplicidade dos dias e noites, no contato com gente das mais variadas classes sociais, pude viver uma infância e uma adolescência plena. Que se completou já em Icaraí, mais perto da parte central de Niterói. Tive uma banda com um grupo de amigos. Ensaiávamos na sala de casa. Minha mãe soube alimentar o sonho enquanto percebeu que ele não atrapalharia minha vida. Um dia, conversou com firmeza e doçura. E me fez mudar de rumo.

Uma mudança que curiosamente me afastou fisicamente dela. Estudando para o vestibular, me mudei para o Rio, atendendo a um chamado antigo de meu pai, com quem, aliás, sempre minha mãe teve ótima relação – mesmo depois de separados.

Passei para Comunicação na UFRJ, onde vivi experiências únicas. Amigos inesquecíveis e minha primeira namorada. Primeira de verdade. O primeiro beijo, as primeiras dúvidas de um relacionamento. E como Deus foi generoso! Deu-me a chance de estar com alguém especial como Andreia. Uma namorada que me mostrou caminhos no sentido mais literal. Despertou em mim uma paixão que nem eu sabia que tinha: caminhar em trilhas e conhecer a natureza.

Um dia nos separamos. Foram três anos inesquecíveis, mas era a hora. Hoje, ela está feliz. E a cada dia que eu falo com ela me sinto ainda mais contente por vê-la tomado o melhor caminho na vida.

Dentre os muitos motivos do término, o procedimento cardíaco em abril de 2005 que me deixou numa mesa cirúrgica acordado por duas horas levando pequenos choques no coração. Não posso reclamar de nada. Pelo que os próprios médicos disseram, no teste de esteira que revelou a arritmia, tudo poderia ter terminado. Mas continuou, pela graça do Pai, que me permitiu seguir a vida. E como aprendi. Recebi o carinho de familiares de Minas, daqui, de amigos e da Andreia. Mas percebi como aquilo causava sofrimento para todos. A família é pra sempre, mas os amores vêm e vão. E, acima de tudo, merecem ser felizes. Eu sabia que um dia chegaria a minha hora de ser. E não podia prendê-la.

Terminamos em 2005, no dia do meu aniversário - 17 de dezembro. Curiosamente, dez anos antes, na mesma data, vivia um dos dias mais especiais de minha vida, curtindo o único título brasileiro do meu time do coração, o Botafogo. Foi sofrido e me doeu muito, sobretudo pelos pais e familiares dela, pessoas de um caráter e compreensão com o meu quadro clínico impressionantes.

Minha vida seguiu com Márcia, alguém de quem sempre vou levar as melhores recordações possíveis. Uma mulher experiente, 36 anos, doce e carinhosa. Aprendi muito com o senso de doação e responsabilidade da Marcinha. Nos juntamos um ano após nos conhecermos. Vivemos juntos em uma ilha na Barra, onde eu trabalhava. A Gigóia foi mais um dos muitos presentes de Deus pra esse filho que errou tanto na vida... Um lugar acolhedor pela tranqüilidade. Não entram veículos, não há violência... barulhos, só o do vento nas plantas e o dos pássaros cantando.

Fiz amigos, tive uma casa e uma companheira. Nem tudo deu certo, mas curti muito. Os vizinhos eram maravilhosos, vivíamos em comunidade – no sentido mais estreito da palavra. A ajuda mútua, os almoços comunitários... Márcia esteve em todos esses momentos. Mas as turbulências eram muitas, se somaram ao problema do coração e um dia ela se foi.

Mais uma vez, recebi o apoio da minha família. O que mais me surpreendeu foi o carinho com que a família dela me tratou. Não apenas no momento em que a Marcinha foi embora, mas durante os dois anos em que estivemos juntos. Acolheram a mim como um filho, um neto, um irmão, enfim, como sou grato a eles!

Profissionalmente não tenho nada do que reclamar. Estagiei em lugares maravilhosos como a revista Ciência Hoje e o Sportv, onde recebi minha formação verdadeiramente e aprendi a amar televisão. Nesse sentido, só tenho a agradecer a pessoas como o Marcelo Barreto, que não só me encaminhou lá dentro como entendeu quando minha saúde não permitiu minha continuidade. Barreto me apresentou ao pessoal do Globoesporte.com assim que voltei a trabalhar. Pouco depois, me mudaria pra Barra, em dezembro de 2006.

Como repórter dos Jogos Pan-Americanos, contratado pelo próprio comitê organizador, tive uma experiência única. Ao lado de uma equipe de voluntários incrível, fiz amigos e tirei lições pra vida a partir da experiência na Arena Multiuso do Rio de Janeiro.

Se aprendi a ser uma eterna criança com minha mãe, meu pai me incutiu ainda mais responsabilidade e o senso de caridade com ações como a distribuição de sopa aos moradores de rua. Também foi com ele que comecei as atividades no espiritismo, um meio de autoconhecimento e alívio para a dor nos momentos mais difíceis.

De volta ao Sportv em novembro de 2007, graças ao convite de outros dois grandes amigos, o Armando Freitas e o Luiz Franco – o Lufi -, tive a chance de retornar ao meu lar profissional. Depois fui contratado para fazer parte do Sportv News, sob a coordenação do Chafi Haddad, um dos melhores chefes que já tive na vida, pela compreensão, firmeza, serenidade e conhecimento. O Sportv foi a sexta casa da minha vida. Lá passei por momentos maravilhosos e alguns de apreensão. Foi onde a doença se manifestou de forma mais intensa.

Por falar nela, acho que é o momento de agradecer também aos profissionais que me deram apoio, como a Sônia, o Daniel, o Antônio, a Verônica e os doutores Sérgio e Marcos. Todos me ajudaram a aliviar o peso das crises e, quem diria!, em meio a isso tudo, ter morado sozinho, voltado a trabalhar e, acima de tudo, entender o que se passava com o meu corpo.

Já cheguei a crer que tudo não passava de um pesadelo, já imaginei que a batalha estava perdida, mas entre vitórias e derrotas ficou a certeza de que nada é por acaso. O aprendizado que tirei desse sofrimento me ajudou a crescer muito. É quando me volto a Deus e agradeço novamente por essa existência.

Todos me ajudaram muito a ter 27 anos da melhor vida que eu podia, tanto espiritual quanto materialmente falando. E agora, que começo a me recuperar, sinto que é o momento de agradecer. Obrigado Pai, Mãe, Ângela, Marcelo, Gabi, Bella, Juninho, Gabriel, Andreia, Márcia, Cristina, Marilene, Sérgio, Baptista, Maria Sena, Sérgio Thiesen, Greici, Luiz, Josué, Barreto, Armando, Lufi, Chafi, Mari, Serra, Isabel, Victor, Ana Paula, Néia, Dani e tantos amigos que eu fiz em casa, no trabalho e grupos espíritas que participei. Obrigado ao Diego por viabilizar o sonho de entrar na faculdade e ensinar. Obrigado, Jô, por estar me ajudando a buscar a felicidade e me fazer tão bem!

Obrigado também aos meus avós - valeu, vó, sei que a senhora está olhando por nós agora -, tios, primos e parentes emprestados, todos lá de Minas (BH, Oliveira e Carmo da Mata), minha madrinha Luci e meu padrinho Nemésio. Como foram importantes pra mim e como tenho que agradecer a Papai do Céu por eles existirem. Às inúmeras falanges espirituais que me acompanham ao longo de minha existência, em especial meu Anjo da Guarda. E, finalmente, a um amigo especial que me acompanhou nos melhores e piores momentos da minha vida. Valeu, Felipe! Você foi meu braço direito. Sou eternamente grato pela tua alegria, companheirismo e fé.

Nada é por acaso. O importante é fazer dos pequenos momentos grandes aprendizados. A eternidade se constroi na linha tênue entre o espaço palpável e o tempo intangível. Deus abençoe a todos nós. Agora e sempre.

domingo, 13 de setembro de 2009

Paixões em Valência


Foi uma ligação simples, mas avassaladora.

Dois gênios. Ele, liberal, sempre à esquerda. Ela, reservada, mais à direita.

Num golpe do acaso, se viram atraídos em Valência. Moravam longe, mas nada que aquela ponte não resolvesse.

Aos poucos, perceberam que se completavam. Ele tinha a oferecer o que preenchia seu vazio existencial. E não tardou para encontrarem a química ideal: elétricos de tão radiantes!

Mas relação, sabe como é. Ele acha que o laço é forte, ela se faz de desentendida e, por tabela, começam a sentir falta de algo.

Ele, sempre confortável em sua pseudo-doação, mal percebe que ela precisa de algo mais.

A união começa a se desgastar e logo ele se dá conta: há um outro elemento na história!

Começam a discutir na ligação: "Quantas pontes atravessei para te ver? E, de mais a mais, nos completávamos em uma química sólida!"

"De mais a mais, vírgula", ela retrucou. "E tampouco podemos dizer que é uma relação sólida", desdenhou.

"Mas você me traiu com esse mau-elemento!", esbaforiu irritado.

"Igualzinho a você. Aliás, vocês H são todos iguais..."

"Aqui, Ó!"

A instabilidade atingiu em cheio o núcleo da relação e tudo já parecia ir por água abaixo. Impossível ficar neutro diante de tamanho constrangimento.

Aí lhe ocorreu a ideia de gênio...

"Vá. Abra, sua ingrata.."

"Vê lá o que vai ser essa caixa."

"Já disse que pode abrir..."

Incrédula, desfez o mistério. E qual não foi a surpresa...

"Um anel! Que lindo!"

Foi a chave para reatar a ligação. Ele prometeu-lhe uma vida mais estável e dedicada dali em diante. Na semana seguinte, foram ao padre que, benzeno o anel, proclamou:

"Sejam felizes para sempre!"

E a velha Valência ficou pequena para eles dois...

sábado, 22 de agosto de 2009

Amor incondicional


Eu acredito no amor puro. Acredito que pessoas podem se abraçar com simples intenção de trocarem afeto e sentirem-se umas às outras. Que podem se ver com ternura sem segundas intenções.

Acredito no poder do amor sincero, maduro, digno. De um sentimento verdadeiro, ético, belo e instigante.

Enquanto eu crer nesse poder, vou viver em busca de amores. Amores errantes, sinuosos, imperfeitos e por isso mágicos. Não precisam virar rolo, namoro, noivado ou casamento. Apenas que se bastem por sua essência. Que nos engrandeçam, sublimem, façam pensar e crescer.

Eu te amo, você sabia? Ainda não aprendi a me amar como deveria, e por isso esse amor tantas vezes não transparece, outras tantas é vacilante, temeroso. Mas te tenho como irmão ou irmã, amigo ou amiga, cúmplice.

Seus problemas? Estou aí para eles sim. Pode me contar. Tenha aqui um braço amigo para ajudar a suportar o peso sobre tuas costas. Posso não saber como, mas acredito na força transcendental da união. Juntos venceremos sempre.

Seremos amigos, amantes, amores, o que Deus nos permitir. Amo viver. Esse amor nos junta para sempre, mesmo que jamais venhamos a nos conhecer definitivamente.

domingo, 31 de maio de 2009

Julgamento e sabedoria



Julgar pra quê? Quando a chuva cai, não julga se vai dar vida a novas plantas ou destruir cidades inteiras. Assim que o sol nasce, não questiona se será o vilão dos que não suportam o calor ou a beleza da paisagem enamorada.

Se Deus que é onisciente me concebeu, mesmo sabendo de cada falha que eu poderia cometer, mesmo conhecendo a fundo a alma do seu filho, sequer julgou se eu merecia ou não estar aqui, porque serei eu a julgar a falha alheia? Ainda julgo porque erro. E erro porque julgo. É recíproco enquanto eu for aprendiz. E nessa escola onde somos todos alunos e professores, a falha de uns é acerto de outros. 

Por que seria você a atirar-me a pedra? Se julgares que mereço, faça-o. Mas tenhas certeza de que um dia terás a oportunidade de refletir por isso. Refletir como faz um espelho ou um riacho aos seus pés. Projeta tua imagem e te fazes crer que és único, sem perceber que não passas de uma projeção distorcida de ti mesmo.

E que curioso! Vivemos por essas projeções. Através de imagens falsas ou incompletas de nós mesmos ou daquilo que nos dizem para ser ou fazer. Quantas vezes nos perguntamos o que fazemos aqui?

A resposta a essa pergunta se chama busca. Por isso é uma estrada sem fim. Sem fim mas jamais sem rumo. Cada passo fica registrado. Se te ofendo, o perdão começa em mim. Se me maltrato, quem sabe a cura esteja em você? 

Por que somos irmãos? Talvez porque o outro seja nada menos do que a extensão de cada um. Minha alegria só se completa quando te faço sabê-la. E meu luto só diminui quando olho para sua dor. 

Se meu coração anda doente, não se conforma com a tua realização e trabalha em silêncio para que ela se desmanche. É nossa infância de espírito sem saber lidar com o brinquedo que não temos. Não seria tão melhor reconhecer e aprender em vez de julgar?

Por que o do outro é sempre mais gostoso? Porque sem o outro nada faria sentido. Por isso adoramos as fotos, os blogs, orkuts, facebooks, mp3, o bate-papo com os amigos e o almoço da família. Por isso choramos a partida de um ente querido. É um pedaço nosso que se vai, mesmo se um dia outro quiser essa vaga.

Nosso dia é curto. São 86 mil segundos que passam num piscar de olhos. Os anos se vão em bem menos tempo. Quando nos damos conta, lá estão os fogos a espocar nos céus e a esperança em nossa alma. 

Então, por que julgar, criticar, ofender, magoar? Não podemos simplesmente sorrir ou chorar? Deixar fluir nosso sentimento como ele vem ao mundo. E nos abracemos diariamente, ainda que em pensamento, numa corrente de amor sem fronteiras. 

Faz bem para os espíritos, faz bem para as cidades, famílias, para o meu vizinho, o seu, para o nosso país e para o planeta em que vivemos. Ele anda doente e só pede um pouco mais de amor. E isso nasce com cada um de nós. Pode acreditar.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Erro e consciência


Uma das artes mais difíceis para o ser humano é perdoar. Não apenas o erro alheio, mas o sentimento de culpa que vez por outra atormenta nossa consciência por aquilo que poderíamos ter feito melhor ou simplesmente pelo que deixamos de ser.

O auto-perdão é tão ou mais importante do que o perdão às falhas dos outros, porque nos livra das amarras da culpa. É, antes, um ato de desprendimento do ego, sempre a nos cobrar perfeição no agir, sucesso nos afazeres, defesa do espaço - tangível ou não -, preservação da autenticidade e manutenção do status.

A auto-punição corrói reações psíquicas e as relações pessoais. Põe fim a amizades, desata casamentos e limita o agir. Apenas por querer preservar nossas máscaras sociais ou prestar contas de nossa pseudo-integridade, punimos inconscientemente nosso campo mental e flagelamos sutilmente nosso corpo perante o ambiente que deveria nos acolher.

Diante da impotência do não-perdoar, ora tendemos à depressão, ora atiramos contra o mundo, espelhando nos que nos cercam nossas próprias carências, construindo assim falsos pontos de apoio para levarmos nosso dia-a-dia com cacos mal-juntados de personalidade.

Não devemos ser tão rígidos com nossa integridade. A fragmentação do eu em diversas personas - o eu-pai, o eu-filho, o eu-amigo, o eu-empregado - é necessária à nossa sobrevivência em um mundo que nos cobra rapidez, desempenho e resultados.

Mas a desculpabilização como exercício diário nos faz reler nossos atos sob uma perspectiva menos dolorosa. Aos poucos, nos damos conta de nossas máscaras punitivas ou evasivas e preparamos nossas almas para uma integridade fluente que vai além das imposições e restrições auto-sugeridas.

A partir daí, a consciência tende a rumar à generosidade e, quando menos nos damos conta, já sabemos sorrir para nossos acertos e jurar amor eterno aos erros que nos fazem crescer.

sábado, 2 de maio de 2009

De pais e paixões



Muitas vezes me pego de volta ao campinho de terra em Maria Paula. Lá, até hoje faço minhas defesas arrojadas, dribles improváveis, gols e, principalmente, revejo meus amigos. Se, de fato, rumasse para aquelas bandas, encontraria meu sonho consumido por casas que justificam a expansão imobiliária na região e, provavelmente, não encontraria um terço de quem imagino lá estivessem.


Não importa. Uma das frases que aprendi com meu pai é: onde está o seu coração, ali está o seu tesouro. Pois de tempos em tempos vou reivindicar meu quinhão. E descubro que ele se mistura com lembranças de um menino que andava descalço por ruas de terra e fazia da pequena vila um grande autódromo com corridas disputadas de bicicleta num espaço onde mal cabiam carros.

No quarto, o grande estádio da cama, com gol de caixa de sapato, jogadores-pregadores coloridos e um narrador empolgado por brincar de ser Deus e criança em plena adolescência. No campeonato do quarto, manipular resultados não era antiético e o vencedor poderia mudar ao sabor dos gritos de gol fabricados numa fração de segundo.

Marcelo, pai de arquibancada, ensinou-me a torcer pelo Botafogo como um autêntico botafoguense. Nas curvas dos assentos acimentados do Maracanã ou sob o sol niterioense de um Caio Martins, me apaixonei pelo futebol com a mesma intensidade que ele torcia pelo Bota. Ele era daqueles capazes de dizer: não gosto de futebol, gosto é de Botafogo.

Fosse por Marcelo, talvez hoje não seria um jornalista esportivo. No máximo, um dos muitos corneteiros de plantão das arquibancadas. E como seria divertido isso! Gritaria contra o técnico, xingaria o lateral que não cobre, o meia que não sabe passar e o atacante que se cansa de perder gols e provocaria de vez em sempre quem não vestisse o preto e o branco.

Mas havia Francisco, de quem herdei meu segundo nome e meu sobrenome. Austero, comedido, perspicaz, um mineiro cruzeirense que freqüentava a sede do Flu e dizia torcer pelo Botafogo. E torcia, de fato. Não como Marcelo. Meu pai era cerebral, racional, lógico. Perdeu por isso, venceu por aquilo, não merecia vencer, tinha de ganhar...

Tudo levava a crer que meu pai não era um autêntico botafoguense, mas ele revelava sangue alvinegro no pessimismo crônico. Por outro lado, quantas não foram as vezes em que o vi abrir mão de torcer pelo seu time de infância para compartilhar da felicidade dos filhos? Não me lembro de um Cruzeiro x Botafogo sequer que tenha feito seu coração pender para o lado celeste.

Com ele, aprendi a ver rivais mortais apenas como adversários esportivos. E entender que futebol era apenas um jogo. Um balé lindo, eterno, de vencedores e vencidos que se alternam em intensidade e freqüência como num perfeito concerto musical. Perder ou vencer depende do ponto de vista, quem sabe do humor de quem torce... E vi que tinha escolhido o lado dos perdedores só para encher meu coração de alegria nas poucas vezes em que saísse vencedor, a curtir uma alegria permitida a poucos.

Perder deixou de ser doloroso com o passar do tempo, justo por conta do aprendizado que meu pai me deu. Já Marcelo virou uma espécie de termômetro das arquibancadas. Sempre que quero saber como está o alvinegro, recorro a ele,afinal, ninguém vive Botafogo mais intensamente do que meu segundo pai. E quando quero deixar de lado o traje de jornalista para viver o torcedor apaixonado, é ao lado dele que acompanho a missa campal dos domingos.

Se alguém algum dia procurar essa alma alvinegra e não encontrar, tente um dos inúmeros estádios espalhados pelos sonhos de cada torcedor deste planeta. Estarei numa daquelas curvas, a inspirar sempre as letras de quem escolheu o caminho da paixão por contar um esporte que escreve torto por linhas mais tortas ainda.

terça-feira, 28 de abril de 2009

Cativar para libertar


Quem não sonha ou já sonhou ter um filho? Eu quero muito ter um, se Deus assim me permitir. Mas confesso não fazer questão de que seja biologicamente meu. 

Não podemos resolver a questão da desigualdade social e racial do mundo, mas temos a oportunidade de, em pequenos gestos, reconhecer no outro a extensão de nós mesmos. Uma delas é pela adoção.

A criação e o desenvolvimento de um filho são puramente culturais. Dependem muito mais do carinho dos pais e das influências do meio em que estão inseridos do que de razões biológicas. Os determinantes genéticos, a bem da verdade, servem basicamente para duas coisas: definir doenças potenciais e características físicas.

Se adoto uma criança sã - até mesmo especial, o que de maneira alguma invalida sua capacidade de se desenvolver na sociedade dita "normal" - a única coisa que teria a lamentar seria o fato de o filho adotivo não ser parecido comigo. Mas, honestamente, isso é motivo para alguém se lamentar?

Só em um mundo que privilegia as aparências. Quantos filhos ditos "de sangue" - expressão que só mostra ignorância e visão limitada do ser humano - não são completamente diversos dos pais? E aí não me refiro aos olhos da mesma cor ou à pele do mesmo tom, muito menos se os cabelos são lisos ou cacheados. Muitos filhos de sangue são diariamente largados no próprio lar por pais que não fazem a menor questão de dispensar o amor que lhes seria devido. Se são sangue do meu sangue, devem pensar, herdarão os bons costumes. E os vêem muitas vezes se tornarem adultos sem o menor cuidado em mediar suas relações sociais em bases éticas. 

Por isso, antes um filho adotivo com caráter, visão humana, cidadão de bem e amoroso. Aliás, costumam receber mais cuidado e atenção de seus pais de coração e não por acaso se tornam também pessoas mais humildes, carinhosas, compreensivas, enfim, especiais mesmo. Milton Nascimento é uma delas. Dono de um olhar terno e uma voz que toca a alma profundamente, metade da alma e do sorriso de Milton resolveriam 90% das questões de nosso mundo superficial, competitivo e corrosivo.

Se um dia tiver dois filhos e puder escolher, é certo que ao menos um deles será adotivo. E criarei com o mesmo amor, dedicação e cuidados que o suposto "filho de sangue". Na verdade, sangue só existe um. Vermelho. Como olhos existem para ver igualmente e mãos para sentirem igualmente. Diferente é pensar diferente.

quinta-feira, 26 de março de 2009

As traves que me sustentam


O aniversário foi do Clóvis, grande amigo das jornadas noturnas no Sportv. Mas houve mais de um presenteado na tarde de hoje, 29 de novembro de 2008.

Foi difícil superar a insegurança, mas após três anos voltei a vestir a capa de vilão e super-herói do camisa 1. Não, não foi um jogo oficial, sequer daquelas peladas com times de coletes. Foi um rachão, um seis pra cá-seis pra lá sem juiz nem compromisso com o placar. Mas como me senti feliz em voltar para a portaria. Sim, porque o gol nada mais é do que uma porta. Não por acaso, os espanhóis chamam o goleiro de portero. Ele frustra as expectativas mais certas dos atacantes e arruina sua própria reputação em questão de segundos. 

Atrás do goleiro, apenas as redes. Não há falha perdoável. Só que neste sábado, até para ser goleiro era preciso encarar o desafio de saltar, cair e me levantar. Sabia que nenhuma defesa mirabolante ou saída arrojada se tornariam mais preciosas do que simplesmente tentar alcançar as bolas. Mero pretexto para voltar à vida. Como diz a Enciclopédia Nilton Santos, maior lateral-esquerdo que o futebol já viu, minha bola é minha vida. 

Também não sou dos que jogam o futebol como se pusessem em xeque a existência a cada dividida. Mas, curiosamente, a sensação que me tocou hoje foi essa. Por outros motivos, claro. Ao longo da vida, sempre sob um travessão e na companhia de dois postes, aprendi a transformar a superfície da pequena área no meu latifúndio. Plantava abraços e colhia amizades; semeava defesas e desfrutava dos momentos de alegria.

Por isso, hoje foi um sábado especial. Daqueles para ficar marcados para sempre. Não me detive mais do que trinta minutos no jogo. Mas era como se, nesse tempo tão breve, todo o mal, insegurança e medo de nunca mais conseguir, tudo isso fosse expurgado em cada vôo cego em busca da bola.

No aniversário do meu amigo Clóvis, agradeço a Deus, à minha família, a quem cuidou e cuida de mim com tanto carinho e aos amigos do Sportv por também ter recebido um presente único. Trinta minutos que valeram três anos de espera e despertaram sonhos latentes de salvador das metas. Agora as metas parecem mais tangíveis. Como as traves que hoje me sustentaram.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Elogio ao primeiro amor

Por favor, não se incomode se invadi sua página, se entrei léguas em sua intimidade. É que o mundo do faz-de-conta estava ficando muito chato. Por isso escolhi seguir contigo.

É apenas uma tentativa, vá lá. E nem pense que é grande coisa tirar o bilhete premiado, afinal esse cupido está mais para saci-pererê. Melhor assim, afinal, de heróis e bandidos já bastam os que nos vendem diariamente. E, se minha vida não é história em quadrinho nem roteiro de ficção, fiquemos com a boa e velha autenticidade.

Por isso, quero um amor de vaga-lume, que se acenda no lampejo instantâneo de uma noite qualquer. Não precisa ser como o sol, a saturar o brilho das coisas pequenas, nem a lua, cheia de promessas enamoradas a cumprir. Basta um brilho de um quarto-de-segundo que dure por uma eternidade em nossas retinas.

Teu amor deve tocar meus olhos, mas não apenas. Precisa dizer à minha íris que cor tem tua alma. E isso não se prova com frases feitas ou presentes pré-fabricados. Quem sabe um olhar pousado, mas sincero, daqueles dias em que até o mar pára para contemplar as gaivotas.

Flores, quem sabe? Contanto que de seu próprio jardim, colhidas com o perfume de teu suor e ofertadas com tuas mãos marcadas de vida. Vida. É disso que precisam nossas quase-vidas. Menos máquina e mais homem. Menos pegar e mais sentir. Menos ficar e mais curtir. E que importa se se vai? Ou há algo mais belo neste mundo do que a impermanência?

Assim, nosso amor será como o fogo, a se apagar a cada brisa noturna e se acender à primeira centelha de sol da manhã. Chama eterna que só dura para sempre porque se apaga a cada dia.

Por isso te peço: por favor, aceite este amor torto, inconstante, impuro, mas único, humano.

domingo, 25 de janeiro de 2009

Dois traumas


Depois de buscar duas bolas difíceis que vieram em minha direção, resolvi me atirar ao encontro da terceira. A saída rápida nos pés do atacante foi corajosa, embora dolorosa. Dor que não senti no calor da partida. Até aquele momento, meus olhos, boca, nariz, ouvido e mãos estavam única e exclusivamente voltados para meu coração. Um movimento, várias batidas. Todas registradas. Mas, daquela vez, não me permiti o susto com o próprio corpo.

A chuva apertou e simplesmente abri os braços enquanto minha bomba-relógio tentava se rearmar. Neguei-a. Apenas fechei os olhos e abri a alma para uma cachoeira que caía sobre meu peito, tal qual no tempo em que meu órgão mais sagrado era simplesmente um coração. Tudo se asserenou. A partida fluiu, os músculos acusaram o tempo inativo e voltei a me sentir mais um. Quantas vezes não pedi a Deus por aquele momento? A saída escancarada. E como não pensei nela antes? Desarmar. Tão simples quanto pular na bola necessária e deixar sair a que não precisa de mim.

Cinco anos de angústia. Cárcere mental. Pensamentos demais, ações de menos. Cada passo se revestia de uma auto-significação que ultrapassava a simplicidade do momento. Tudo era complexo. E, em complexo, cheio de entradas e saídas. Vazado, retalhado; furado, remendado. Quanto esforço físico e mental em nome da coerência inconsciente. E bastava deixar fazer e passar... Passou.

Agora sim, começa um ano. Recomeça a vida. Acordo do pesadelo que parecia interminável com o corpo dolorido, mas cheio de vontade de movimentá-lo. Hora de simplificar, mexer apenas o necessário. Mas quanta coisa é necessária... Deixar fazer, deixar passar... Jogar com a vida. E me deixar ser jogado. Deixar que passe por entre os poros, corra pelas veias e atinja em cheio um coração apaziguado.

Fim de jogo. De trauma, apenas o de um dedo valente, enfaixado por um dia. Mas o que é esse perto do que acaba de se encerrar? Na memória, ficarão apenas as cicatrizes, a mostrarem que um dia a dor cura, a angústia passa e a felicidade acorda.