Quase sempre, temos a certeza de que o fim é para sempre, uma inegável demonstração da pequenez de nosso espírito diante da lei geral da natureza: tudo está destinado a se renovar.
Certa vez, o discípulo perguntou ao mestre qual o principal ensinamento para que suportasse as grandes tristezas. "O mesmo das grandes alegrias: lembre-se de que um dia isso passa".
Nenhuma cidade foi reerguida sem ruínas, nenhuma teoria elaborada sem linhas apagadas, nenhuma fórmula escrita sem papéis jogados no lixo. Do mesmo modo, nenhum império foi eterno ou nenhuma verdade perene.
A vida nos ensina a ser fortes a todo custo, mas raramente vencemos o desafio do desapego. Desapegar-se é aprender a lidar com a morte nossa de cada dia. É entender que tudo o que nos cerca se renova, mas para isso precisa inevitavelmente falecer.
Ao lamentarmos os que nos deixam, nos esquecemos de que a vida não se encerra no último suspiro. Acredite-se ou não na continuidade da alma, na pior das hipóteses é inegável a permanência das ideias, dos pensamentos, do jeito de se expressar, em suma, do legado que nossa existência deixa a cada um que nos sucede.
Onde estão os que nos deixaram? Quem sabe em seus ensinamentos que repetimos como nossos, ou talvez no jeito de caminhar ou de abraçar. Nas histórias que com eles aprendemos e hoje repassamos? Como então dizer que morreram? Passaram, se transformaram e nos transformaram. Numa só expressão, se eternizaram como os grandes artistas que seguem inspirando nossa existência e dignidade.
Coragem, serenidade e sabedoria, convites para o desapego diário, primeiro passo de uma longa caminhada. Contemplar a efemeridade do presente é preparar o coração para a beleza do futuro. Nada nos pertence, tudo é da natureza. Dela veio e para ela sempre retornará.

